As últimas semanas não tem sido fáceis e os dias junto ao fim de semana
parecem ser os que trazem piores notícias.
Acabei as últimas férias de verão este
ano e agora só no Natal e entrei em Setembro com uma descrença generalizada
em tudo. Foi apenas o regressar à vidinha costumeira dos dias que passam.
Depois veio esta história de nos cortarem mais no salário e a machadada
final na esperança de muita gente.
Não tenho grandes luxos, a única renda
que pago além da casa é o ginásio e até nisso terei provavelmente que cortar.
Fiz as contas e vai ter que ser muito apertado para não acabar o mês a
negativo. Perante este cenário, torna-se só evidente que temos de fazer
algo, que temos de arriscar, que não se pode ficar quieto à espera que
os ladrões apareçam. E nisso, a perspectiva de uma vida no soalheiro Portugal,
perto dos meus, também se desvanece.
No entretanto descubro que a minha candidatura
a Paris nem sequer saiu da mesa das assinaturas, apesar de cumprir todos
os requisitos, e que no entretanto há outra pessoa que conseguiu uma vaga
que queria, porque foi "convidada". Estou farta de cunhas e de
tramas de bastidores e estou cansada que quem faça as coisas dentro dos trâmites, nunca seja avaliado pelo mérito. Estou zangada comigo por ser
esta besta que acha que fazendo as coisas como deve ser e sem tramar ninguém,
que um dia sou recompensada porque "what goes around comes around".
És tão ridícula garota, tão burra e nunca mais aprendes!
Ontem novo baque: a vida está determinada
a arrancar-me todas as pessoas que me dizem algo. Vou perder mais um amigo
para o mundo, mais um que vai embora, atrás da vida que o país lhe nega.
Fico feliz por ele, mas confesso que só me apetecia chorar ao telefone
ao ouvir aquilo. Apetece-me gritar com o universo a dizer-lhe que eu não
consigo mais, não consigo mais perder mais ninguém. Não tenho mais coração.
Olho para trás, os últimos dois anos
e conto as pessoas que restam. O Mundo e a vida já me roubaram tanta gente
ao longo destes dois anos, roubaram mais do que aquilo que deram de volta.
E quando a noite cai, quando os contactos no telemóvel começam a ter mais
números estrangeiros que portugueses, quando queremos fazer algo e sabemos
que a pessoa que ia adorar fazer aquilo já não está ali, é quando dói mais
e damos conta que à medida que o tempo passa, vamos ficando mais e mais
sozinhos.
Esta crise não veio só roubar dinheiro,
veio roubar pessoas, vidas. Estou muito mais pobre agora, muito mais amargurada.
Porque todos os dias me dói a ausência de quem não está, da vida que era
suposto ser, as relações que era suposto ter e todas elas me têm sido estripadas.
E depois esta percepção: todos vão seguindo
a sua vida, mais cedo ou mais tarde, arriscando...está tudo espalhado pelo
mundo e eu sei que lhes dói todos os dias também, sei que não é fácil terem
que recomeçar. E quando se está num lugar em que cada vez há menos motivos
para ficar, o que nos prende? Um homem sem esperança é um homem perigoso
porque já muito pouco tem a perder. E porque a falta de esperança nos faz
trilhar outros caminhos que não julgáramos ser capazes. Chegou nesse ponto
para mim.